Enquanto trabalhadores enfrentam a crise da estatal, direção destina milhões a assessoria jurídica para estudar transformação dos Correios em sociedade de economia mista e possível abertura de capital
Os Correios enfrentam uma grave crise financeira, acumulam prejuízos bilionários e buscam novos empréstimos para manter suas operações. Mas, apesar desse cenário, a direção da empresa contratou, sem licitação, o escritório de advocacia Pinheiro Neto por R$ 7,097 milhões para prestar assessoria jurídica à reestruturação da estatal. O contrato prevê a preparação dos Correios para se transformar em sociedade de economia mista e realizar uma eventual oferta pública de ações na Bolsa de Valores.
Revelada pelo jornal O Globo em 23 de outubro, a contratação levanta questionamentos sobre as prioridades da direção da empresa. Afinal, se os Correios alegam falta de recursos para manter suas atividades e atender às reivindicações dos trabalhadores, por que destinar milhões de reais a um escritório privado para preparar mudanças na estrutura societária da estatal?
Contrato prevê abertura de capital e participação de investidores privados
O contrato com o escritório Pinheiro Neto contempla 17 categorias de serviços jurídicos. Entre elas estão a análise da legislação necessária para modificar a natureza jurídica dos Correios, a definição de uma nova composição acionária, a elaboração de contratos de compra e venda de ações e a assessoria para uma eventual abertura de capital. O escritório também deverá auxiliar na análise jurídica de documentos por potenciais compradores de participação na empresa.
A transformação dos Correios em sociedade de economia mista abriria caminho para a entrada de investidores privados na empresa. Embora o governo pudesse manter inicialmente a maioria das ações com direito a voto, a abertura de capital permitiria a negociação de ações na Bolsa e a ampliação da participação privada.
Não se trata, portanto, de uma simples reorganização administrativa. O contrato contempla medidas jurídicas para viabilizar uma mudança profunda na estrutura de propriedade de uma empresa pública estratégica para o Brasil.
Prejuízos bilionários e contratos milionários
A contratação do escritório ocorre em meio a uma crise financeira que a direção dos Correios utiliza para justificar uma ampla reestruturação.
Segundo os números divulgados, a estatal acumulou R$ 8,5 bilhões em prejuízos em 2025 e outros R$ 5,5 bilhões no primeiro semestre de 2026. São R$ 14 bilhões em perdas em apenas 18 meses.
Em setembro de 2025, Emmanoel Rondon assumiu a presidência dos Correios. Desde então, a participação privada passou a ser discutida como uma das alternativas para a recuperação financeira da companhia.
Além do escritório Pinheiro Neto, os Correios contrataram a consultoria norte-americana McKinsey para atuar no processo de reestruturação. O contrato jurídico prevê, inclusive, a análise de estudos produzidos por consultorias externas sobre questões administrativas, societárias, operacionais e financeiras.
Enquanto isso, a empresa busca recursos no sistema financeiro. No final de 2025, os Correios contrataram um empréstimo de R$ 12 bilhões com cinco grandes bancos brasileiros. Em outubro, passaram a negociar um novo financiamento de R$ 7 bilhões, que poderia elevar o total das operações a R$ 19 bilhões.
A proposta apresentada por Citibank, Deutsche Bank, JP Morgan e ABC Brasil ao Tesouro Nacional previa a possibilidade de garantia da União. Mas até o momento, não foi possível confirmar se a operação recebeu aprovação.
Do mesmo modo, a minuta do acordo também estabelece a possibilidade de vencimento antecipado da dívida caso alterações na composição acionária dos Correios comprometam a validade ou a eficácia do contrato de crédito.
O cenário evidencia uma contradição: o Estado assume os riscos financeiros e busca garantir a continuidade da empresa, enquanto a direção prepara medidas que podem permitir a participação de investidores privados em seu patrimônio.
Escritório tem atuação no Vale do Silício
Outro aspecto que chama atenção é a atuação internacional do Pinheiro Neto. O escritório mantém uma unidade em Palo Alto, na Califórnia, região que concentra algumas das maiores empresas de tecnologia do mundo e é conhecida como Vale do Silício.
Inaugurada em 2018, a unidade foi criada para ampliar as relações comerciais do escritório com empresas de tecnologia dos Estados Unidos. Na época, representantes da banca destacaram o interesse em intensificar os negócios com companhias instaladas naquela região.
A relação do Pinheiro Neto com grandes empresas de tecnologia norte-americanas também foi apontada em publicação de Erika M. da Veiga na rede social X, em 30 de outubro. Amazon e Mercado Livre foram mencionadas como clientes do escritório e empresas interessadas no mercado brasileiro de entregas.
Embora não tenha sido possível confirmar de maneira independente a existência de contratos atuais de assessoria jurídica entre o escritório e essas companhias, ambas possuem grandes operações de comércio eletrônico no Brasil e investem em estruturas próprias de logística, disputando com os Correios o transporte e a distribuição de encomendas.
A questão é particularmente relevante porque a rede postal brasileira constitui um patrimônio estratégico. Construída ao longo de décadas com recursos públicos, ela alcança praticamente todo o território nacional e representa uma infraestrutura de enorme valor econômico.
Trabalhadores não podem pagar a conta da crise
O SINTECT-GO questiona a prioridade dada a contratos milionários enquanto os Correios alegam dificuldades financeiras e os trabalhadores enfrentam os efeitos da crise.
É necessário esclarecer quais medidas estão sendo adotadas para recuperar a capacidade operacional da empresa, preservar os empregos, garantir os direitos da categoria e assegurar a continuidade do serviço postal público.
Afinal, a crise dos Correios não pode servir de justificativa para transferir à iniciativa privada uma estrutura construída com décadas de investimento público. Se faltam recursos para os Correios, por que sobram milhões para escritórios e consultorias que estudam a entrada de capital privado?
A recuperação da estatal precisa estar comprometida com o interesse público, com a valorização dos trabalhadores e com a preservação de uma empresa estratégica para o Brasil. O patrimônio nacional não pode ser tratado como oportunidade de negócio para grandes grupos econômicos.
Com informações do jornal O Globo