Reestruturação dos Correios precisa começar de cima, não sacrificar a base

Os Correios anunciaram um amplo processo de reestruturação com o argumento de enfrentar uma crise financeira provocada pela queda no volume de cartas, mudanças no mercado de encomendas e dificuldades no modelo de financiamento da universalização postal. O SINTECT-GO reconhece que mudanças administrativas podem ser necessárias. No entanto, a forma como essa reestruturação vem sendo conduzida levanta sérias preocupações para os trabalhadores e para a própria função social da estatal. O debate não pode começar com corte de postos de trabalho na base enquanto permanecem estruturas inchadas na alta administração.

É preciso fazer uma reestruturação de cima para baixo, reduzindo o excesso de cargos comissionados, funções gratificadas e estruturas administrativas que não impactam diretamente a operação postal. Afinal, não faz sentido penalizar quem está na linha de frente enquanto cargos de confiança e estruturas de fachada seguem intocados.

Outro ponto fundamental é a valorização dos trabalhadores de carreira. Os Correios possuem profissionais concursados, experientes e qualificados, que conhecem a realidade da empresa e sustentam a operação diariamente. A reestruturação deveria priorizar essas pessoas nos espaços de decisão, e não ampliar indicações externas ou cargos sem vínculo com a trajetória da empresa.

Em Coletiva de Imprensa, realizada no dia 29 de dezembro de 2025 na sede da Empresa em Brasília, o presidente dos Correios Emmanoel Rondon afirmou que o plano da direção é desligar cerca de 15 mil trabalhadores por meio de programas de demissão incentivada (PDV). Na prática, isso significa mais sobrecarga para quem fica. Hoje já faltam trabalhadores nas unidades, nos centros de distribuição e nas agências. Carteiros e atendentes lidam com acúmulo de funções, jornadas extenuantes e metas cada vez mais difíceis de cumprir. Portanto, reduzir ainda mais o efetivo é comprometer a qualidade do serviço e a saúde dos empregados.

A situação se torna ainda mais contraditória quando lembramos que houve concurso público em 2024, mas até agora os aprovados não foram chamados em número suficiente para recompor o quadro. Se há déficit de pessoal na base, por que não convocar concursados em vez de enxugar ainda mais o efetivo? A reposição por concurso é medida básica de gestão responsável em empresa pública.

“Então, vem sendo anunciado o PDV de 10 mil empregados para 2026 e mais 5 mil para 2027. A gente tem uma revisão de cargos de média e alta remuneração, tanto nas unidades estáticas e superintendências estaduais, como aqui na sede. E a gente tem a revisão do plano de saúde e de previdência, para gerar menor impacto atuarial e menor custo administrativo para a empresa e também para os empregados”, disse Emmanoel Rondon durante a coletiva de Imprensa realizada no dia 29/12/2025.

Também preocupa o fechamento de agências próprias, apresentado como medida de redução de custos. Essa decisão atinge diretamente a população, especialmente em cidades pequenas e bairros periféricos. Os Correios não são apenas uma empresa logística: exercem uma função social essencial, garantindo acesso a serviços postais, encomendas, correspondências, pagamentos e inclusão social onde muitas vezes o setor privado não chega. Reduzir a presença física da empresa é enfraquecer esse papel público e aprofundar desigualdades regionais.

A direção também tem defendido mudanças operacionais e tecnológicas como solução para recuperar competitividade. O sindicato alerta que medidas como o chamado SD (Sistema de Distribuição), vendidas como modernização, têm gerado na prática mais trabalho e mais pressão para os carteiros, sem resolver os problemas estruturais da operação. A tecnologia deve servir para melhorar as condições de trabalho e a eficiência, não para intensificar a cobrança individual.

O sindicato também questiona: a troco de que estão sendo feitos tantos levantamentos internos e mudanças operacionais, se a carga real de trabalho em diversas unidades não corresponde às justificativas apresentadas? Há locais com baixa carga formal registrada, mas com acúmulo de tarefas administrativas, desvios de função e falta de pessoal, o que distorce a realidade do dia a dia.

A reestruturação não pode ser sinônimo de retirada de direitos. Não aceitaremos que o ajuste financeiro recaia sobre salários, benefícios e condições de trabalho, enquanto problemas de gestão, falta de investimento ao longo dos anos e decisões equivocadas do passado ficam sem responsabilização.

 

O SINTECT-GO defende uma reestruturação que:

  • Corte privilégios e excessos na alta estrutura;
  • Valorize trabalhadores de carreira;
  • Convoque concursados para recompor o efetivo;
  • Preserve agências e a função social dos Correios;
  • Invista em tecnologia com foco em melhorar o trabalho, não em ampliar a sobrecarga.

 

Reestruturar é possível. Precarizar o trabalho e enfraquecer o serviço público, não!

 

Diretoria Colegiada

SINTECT-GO